Influência digital não exige PhD, mas envolve sempre responsabilidade

por Jacqueline Lafloufa

29 de março de 2022


Feita em voz alta ou em silêncio, sempre que um influenciador digital alcança destaque, a pergunta da maioria das pessoas é quase sempre a mesma: quem é esse, mesmo?


Essa situação voltou a acontecer em fevereiro de 2022, quando o podcaster Bruno Aiub, conhecido como Monark, proferiu barbaridades em uma entrevista, defendendo que nazistas deveriam ter o direito de se organizar em um partido, o que repercutiu de maneira bastante impactante na imprensa nacional. “Esse cara deve ser alguém famoso na internet, né? Mas eu nunca tinha ouvido falar”, um interlocutor comentou comigo em uma conversa casual.



(Foto: Geralt/ Pixabay)


Esse é um momento clássico na trajetória dos influenciadores digitais, algo que venho mapeando e acompanhando desde 2018. Fazendo um paralelo com a conhecida jornada do herói de Joseph Campbell, que elenca os momentos comuns às narrativas míticas, os influenciadores passam por muitos testes e provas desde o momento que sentem o “chamado” para produzir um tipo de conteúdo na rede. De repente, em algum momento dessa trajetória, eles são alçados ao sucesso e “furam” a própria bolha, alcançando novos públicos.


Invariavelmente, esse é um momento crítico, porque exacerba os riscos envolvidos com a influência digital. Ônus e bônus ficam muito altos: se a interação foi positiva e, portanto, o sucesso foi benéfico para a tal pessoa influenciadora, esse é um momento de oportunidades que se empilham e chegam no mesmo minuto, precisando ser coordenadas e priorizadas de forma muito rápida. No entanto, no caso de interações negativas, como a de Monark no podcast Flow, os ônus também vêm aos montes – com a remoção de patrocinadores, encerramento de projetos, demissões e outros impactos financeiros, profissionais e eventualmente até legais. Haja gestão de crise (e um bom advogado) para lidar com isso.


No entanto, existe um aspecto, frisado pela pesquisadora brasileira em comunicação digital Issaaf Karhawi, da ECA-USP, que faz muita diferença nesse balanço entre ônus e bônus que serão experimentados pelos influenciadores ao furarem suas próprias bolhas: a existência (ou não) de amadorismo, de uma falta de preparo para exercer aquela influência.


O momento de cultura de participação que vivemos, muito bem descrito pelo norte-americano Clay Shirky em um título homônimo de 2011, permite que qualquer pessoa, de qualquer local do mundo, sem exigir qualquer credencial, publique o que quiser. A inexistência de curadores – ou porteiros, numa tradução rasteira dos gatekeepers, que são muitas vezes representados por editores, revisores, gestores e toda sorte de profissionais dedicados a balanços e contrapesos – dá liberdade para que a publicação aconteça muito rapidamente, mas a falta de expertise (ou, em outras palavras, o amadorismo) pode transformar qualquer interação em um “publicídio” – uma publicação que leva a um suicídio profissional da pessoa que faz a postagem.


O pesquisador e virologista Átila Iamarino, que é tema da minha pesquisa de mestrado, também furou sua bolha em um momento muito crítico. Às margens do início de uma pandemia sem precedentes no último século, Iamarino divulgou por meio de seus canais digitais um alerta de que a situação da pandemia de Covid-19 poderia se agravar, mencionou projeções de mortos na casa do milhão e soou as sirenes avisando que a situação poderia complicar se nada fosse feito no início de 2020.


No entanto, no caso da Covid-19, a diferença é que Átila, além de influenciador, é também um expert. Estava falando de um assunto que não apenas era parte de sua formação, mas sobre o qual ele havia pesquisado e refletido. Sua live, tão ao vivo como a entrevista que levou Monark a dizer impropriedades, poderia até ser referida como “amadora” no formato, mas não em seu conteúdo. Iamarino fez, na época, uma divulgação científica consciente e responsável, ainda que em tons alarmantes.


Por isso, mesmo que tenha em algum momento lidado com campanhas de ódio (o famoso hate) ou recebido críticas por um suposto alarmismo, e ainda que o momento estivesse envolto em inseguranças científicas, não havia fragilidade de expertise, de credibilidade ou até jurídica na forma como Iamarino divulgava as informações que compartilhava, sempre fornecendo os créditos das fontes, mencionando os autores dos estudos e alertando sobre as margens de erro das projeções que utilizava como base.


Claro que é preciso cuidar para que a preocupação com o amadorismo não se transforme em corporativismo burocrático, onde ninguém pode falar sobre nada que não seja chancelado ou validado por uma carteirinha, uma certificação ou um diploma na mão.


No entanto, pode ser importante ter em mente o quanto o conhecimento da causa e o cuidado com o que se aborda é um importante diferencial na influência digital. Tanto para quem influencia, que pode ser responsabilizado pelo que expressa, quanto para quem se deixa ser influenciado de maneira leviana, que pode acabar sendo confundido ou enganado.


 

Jacqueline Lafloufa é jornalista, especialista em jornalismo científico (UNICAMP) e em comunicação digital (USP). Também é mestranda em divulgação científica e cultural no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (LabJor/UNICAMP). Ela pode ser contatada pelo e-mail jacqueline@lafloufa.com. O texto foi escrito a convite da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (RedeComCiência).


* Texto publicado originalmente no Observatório da Imprensa: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/midia-local/influencia-digital-nao-exige-phd-mas-envolve-sempre-responsabilidade/