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Jornalismo de ciência: os problemas são os mesmos em toda a América Latina

Demissões na redação. Fechamento de veículos. Poucos profissionais especializados. O cenário do jornalismo científico parece se repetir da Cidade do México a Santiago, de São Paulo a Bogotá. Todos os países da região insistem na mesma fórmula do colapso das grandes empresas de mídia: cortes na qualidade e na quantidade são a única resposta para a interminável crise do negócio. O que fazer diante desse cenário? Como adotar uma rota alternativa, que traga um futuro mais esperançoso para repórteres, editores e companhia limitada?


O caminho é a união. E vemos brotar um movimento que busca justamente isso: entre os dias 14 e 15 de novembro, Bogotá foi palco do Primeiro Encontro Latino-Americano de Jornalistas de Ciência. Promovido pela Associação Colombiana de Jornalistas e Comunicadores de Ciência, o evento trouxe uma série de palestras e workshops, que reuniram cerca de 100 repórteres, editores, assessores de imprensa e demais interessados no tema nas dependências da Universidade do Rosário, uma das mais tradicionais e antigas da cidade.


O encontro contou com uma série de palestrantes vindos da América Latina e do Caribe. Colegas de Argentina, Peru, Costa Rica, Venezuela, Panamá e México apresentaram as particularidades do jornalismo de ciência de seus países e como vêm batalhando para criar (e manter) uma associação que represente e reúna os profissionais da área. Nós, da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (RedeComCiência), também fomos convidados para contar brevemente como anda nosso trabalho por aqui e como evoluímos nos últimos meses.


As veias abertas da América Latina O que mais chamou atenção em todas as falas dos colegas foi perceber o quanto nossos problemas são parecidos. Todas as redes nacionais concentram seus membros e atividades nas grandes metrópoles, como Cidade do México, Bogotá, Buenos Aires e São Paulo. Todas sofrem com a escassez de jornalistas com uma mínima noção de ciência. Todas penam com a crise dos grandes veículos, que cortam postos de trabalho sistematicamente.


O que podemos fazer como grupo para atacar todas essas moléstias? A primeira coisa, e mais óbvia de todas, é aprender com as experiências dos vizinhos. Nossos colegas mexicanos estão super bem articulados e organizados. Os argentinos fazem uma série de eventos criativos. Nós, brasileiros, criamos uma estratégia de integração nacional com eventos fora de São Paulo que começa a trazer resultados. Por que não repetir o mesmo caminho aqui ou acolá?


O segundo passo é nos unirmos como região e criarmos uma rede latinoamericana de jornalistas de ciência. Esse trabalho começou a ser articulado em conferências anteriores, mas deu um passo definitivo em Bogotá: conseguimos fazer a primeira reunião de trabalho, com ata, visão de futuro e objetivos traçados. Saímos de lá mais articulados e com a expectativa de que algo frutífero pode sair dessas primeiras conversas.


Amor nos tempos de cólera A primeira missão desse grupo recém-formado será trabalhar em rede para viabilizar a realização da próxima Conferência Mundial de Jornalistas de Ciência, marcada para acontecer em 2021 na cidade de Medellín, também na Colômbia. Depois de edições organizadíssimas realizadas em São Francisco, Estados Unidos (2017), e Lausanne, Suíça (2019), será um desafio enorme manter o nível do evento com menos recursos financeiros à disposição.


Por isso, a conferência de Medellín está sendo tratada não como um evento que representará somente a Colômbia, mas, sim, toda a América Latina – quiçá todas as vozes do sul global. A ideia dos organizadores é realizar um congresso mais leve, com espaços para conversas, almoços e troca de contatos, e a exigência de que ao menos metade dos palestrantes seja do sexo feminino ou originários de fora do eixo Estados Unidos-Europa.


Essa conferência será uma valorosa experiência para que todos nós, latinoamericanos, coloquemos em prática algo muito importante para o desenvolvimento do jornalismo de ciência em nossa região: a colaboração internacional. Precisamos criar melhores laços entre os colegas do continente. Quantas histórias boas, interessantes e inusitadas podem surgir daí? Será que um problema que acomete determinada região do Brasil também não ocorre no Equador ou no Chile? Contar essas histórias não pode ser relevante para todos?


Histórias da eternidade Cito aqui um exemplo de como essa colaboração além-fronteiras é valorosa: durante um workshop para jornalistas latinoamericanos na Conferência Mundial de Jornalistas de Ciência 2019, participamos de uma atividade justamente para estimular esse intercâmbio. Nos reunimos em grupos que precisavam apresentar uma sugestão de pauta. Um dos times seria escolhido para apurar e escrever a reportagem, com garantia de pagamento e publicação do conteúdo.


O grupo vencedor da atividade teve a ideia de investigar a fundo sobre saúde de homens e mulheres transsexuais na América Latina. A reportagem foi feita pelas jornalistas Carmina de la Luz (México), Debbie Ponchner (Costa Rica), Margaret López (Venezuela) e Valeria Román (Argentina) e publicado no portal Tangible (El Universal), do México. Você pode conferir o conteúdo na íntegra aqui.


Num mundo cada vez mais conectado, é primordial estreitarmos os laços com quem está geograficamente mais perto. No caso de nós, brasileiros, a barreira do espanhol até existe, mas não é tão grande assim. Afinal, todos podemos aprender muitos uns com os outros se começarmos a trocar figurinhas com mais frequência. Quem sabe a Rede Latinoamericana não venha justamente para possibilitar esse espaço e oferecer uma luz no fim do túnel?


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André Biernath é jornalista e repórter da revista Saúde É Vital, da Editora Abril, há nove anos. É fundador e presidente da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (RedeComCiência).


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Texto publicado originalmente no Observatório da Imprensa: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/jornalismo-cientifico/jornalismo-de-ciencia-os-problemas-sao-os-mesmos-em-toda-a-america-latina/